O cearense Vitoriano lança seu segundo álbum, "Para manter a loucura estável". Edgard Scandurra (Ira!), Juliano Gauche e Bárbara Eugênia estão entre as participações especiais.
Para quem conheceu o cearense Marcos Vitoriano no palco com a extinta Alegoria da Caverna (autores da famigerada "Mumu de Sabi", tema das muriçocas do bairro da Sabiaguaba) e na primeira formação da banda de baile Os Transacionais, pode se surpreender com a sua carreira solo.
Ao seguir um caminho mais criativo para sua trajetória musical, desde o lançamento do primeiro álbum solo, "Plantando Semente no Asfalto Quente" (2013), Vitoriano conseguiu agregar gente que tem uma boa história no cenário musical brasileiro, como o veterano Rodger Rogério, um dos nomes do Pessoal do Ceará, e o guitarrista do Ira!, Edgard Scandurra, para ficar, por ora, em dois exemplos.
Vitoriano lança "Para manter a loucura estável", seu segundo álbum, nas plataformas digitais, e faz show de lançamento nesta sexta (14), no Sesc Belenzinho, em São Paulo (SP). O trabalho traz um encarte produzido em HQ (história em quadrinhos), desenhada por artistas como Rafael Limaverde, Diego Maia, Manu Romeiro e Walfrido Monteiro.
O álbum é duplo: neste momento, o primeiro disco sai com 15 faixas. Por conta de uma instigação pessoal, Vitoriano escolheu se debruçar sobre a questão da loucura. A princípio, ele revela, pensou em pautar "loucura e sociedade" para uma pesquisa de mestrado (ele é graduado em Música), mas acabou fazendo um disco.
"Esse tema sempre me interessou. Depois, comecei a estudar sobre loucura e sociedade, sobre artistas envolvidos de alguma forma com a insanidade. Até já me apresentei tocando o repertório (temático), em alguns CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e no Congresso Brasileiro de Saúde Mental", situa o músico.
Dividindo a produção do novo álbum com Carlos Gadelha (O Jardim das Horas) e Maurício Pegnolatto (MAU), Vitoriano conta que o processo do primeiro disco foi mais solitário. "Na verdade esse disco era pra ser o primeiro. O 'Plantando Semente no Asfalto Quente' fiz todo sozinho: produzi, arranjei e toquei quase tudo no disco. Nesse (segundo) aconteceu o oposto", destaca.
A feitura do disco se ampliou para o "Seu Conjunto", a formação de músicos que atualmente acompanha o cearense: MAU (baixo), Carlos Gadelha (guitarra e vocal), Felipe Maia (bateria), Xavier Francisco (percussão e bateria eletrônica), Monstro (teclado e vocal) e Natália Coehl (vocal e performance).
"Eu conheço o Felipe e o Carlos desde moleque, em Fortaleza. A Natália foi a última a entrar com voz e performance. Sou admirador do talento de todos eles e isso me fortalece muito", resume Vitoriano. Quanto às participações especiais do disco, Edgar Scandurra ("Balada do Anjo"), Juliano Gauche ("Igualzinho aos Diferentes") e a cantora Bárbara Eugênia ("Olhos fechados") cantam as faixas na íntegra.
Vitoriano adianta que, para o segundo disco do álbum duplo, uma das participações especiais será de Rodger Rogério. A faixa é uma parceria de composição dos dois, "Mundo Cão". Vitoriano e Rodger já se encontraram em palcos como o do Mambembe (Praia de Iracema). No repertório, a princípio, criaram novas versões para composições de Rodger, como a clássica "Barco de Cristal" e "Curta Metragem".
"Ele foi o primeiro a ser convidado a 'embarcar' nessa loucura comigo. O Rodger é um amigo querido: temos muitos sonhos e alguns planos. O resto a vida mostra o caminho", reflete Vitoriano.
Encarte
Para criar os desenhos que compõem o encarte do disco, Vitoriano partiu da ideia que daria, segundo ele, para fazer um filme. Tanto que existia "um roteiro. E comecei a compor as músicas e criar algo próximo a uma ópera rock, mas daí virou uma 'HQ rock'", revela.
Ele detalha o contato com os artistas visuais. "Conversamos sobre o enredo e eles entraram com bastante criatividade e boa parcela de interpretação livre do que eu propus no começo. Ampliou mais ainda o aspecto coletivo do projeto. E tudo ficou bem mais rico de significados", destaca o músico.
Disco 1
Em termos de sonoridade, o disco 1 do álbum duplo de Vitoriano sustenta um clima constante, por conta dos timbres escolhidos para cada instrumento. Esse arranjo sonoro ajuda a situar a sequência das faixas em uma narrativa única, amparada pelas letras que registram diversos olhares, ora até cômicos ("Balada do Anjo"), sobre a loucura.
O disco começa bem, após a faixa de abertura, com a trinca "Pra ficar maluco", "Da Ladeira" e "Igualzinho aos Diferentes". Esta, além do título criativo, traz o vocal do talentoso Juliano Gauche (que em 2016 lançou o bom disco "Nas Estâncias de Dzyan").
O disco perde um pouco a força na sequência, com as faixas cantadas em inglês, "So long" e "Wild Ones". Ambas são bem acabadas, como é o disco inteiro. Porém, nelas, a identidade do músico "se funde" em outra coisa que torna esse trecho mais genérico, em relação às composições em português. "High and Lows", a penúltima faixa, confirma a mesma impressão.
O repertório retoma o fôlego com outra trinca: a ótima faixa-título, "Contato Imediato" e "Injetados". Embora traga um conceito para ser destrinchado discursivamente, o arranjo instrumental das canções tem força para acompanhar a (boa) viagem de letras como a de "Injetados". Nesta, Vitoriano traz imagens surrealistas, como nos versos "Então buzinem, seus automóveis injetados".
Fonte: Diário do Nordeste
Fonte: Diário do Nordeste
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