Como o single Se liga nas de cem (Eduardo Brechó e Jairo Pereira) já sinalizara em janeiro com discurso raivoso inspirado nos códigos sociais do hip hop, o som da Aláfia dá caldo consistente, por vezes até ácido, no independente terceiro álbum da big-band paulistana. Disco em que a sonoridade densa sobressai em relação às músicas em si (com letras eloquentes quase sempre superiores às melodias), SP não é sopa – Na beirada esquenta mete a colher no fervente caldeirão de questões sociais que deixam a cidade de São Paulo (SP) cotidianamente na pressão, pronta para explodir a qualquer momento.
O link do som negro da Aláfia com a ancestralidade da África reverbera, por exemplo, nos versos da música No fluxo (Eduardo Brechó e Lucas Cirillo), mas o tom de SP não é sopa é bem contemporâneo, com batidas de funk e rap potencializadas pela dose maior de eletrônica usada pela banda na formatação do disco produzido sob direção musical de Eduardo Brechó. Integrantes do grupo As Bahias e A Cozinha Mineira, Raquel Virgínia e Assucena Assucena encorpam o canto de Mano e mona (Eduardo Brechó e Lurdes da Luz) ao lado dos vocalistas Eduardo Brechó, Jairo Pereira e Xênia França. Já Tássia Reis solta a voz na música-título São Paulo não é sopa (Eduardo Brechó).
O som do álbum soa tão denso quanto tenso, ainda que o suingue percussivo do longo samba-rock Agogô de 5 bocas (Eduardo Brechó, Fábio Leandro e Vagnão) – turbinado com o toque da timbatera comandada por João Parahyba, percussionista projetado no Trio Mocotó – tente injetar alguma descontração no álbum. SP não é sopa engrossa o caldo político em músicas como Gentrificação (Eduardo Brechó), de versos concretos como "Condomínio nivela / Cala, gela". Peripatéticos (Eduardo Brechó) traça perfil impiedoso das elites paulistanas, sob a ótica das periferias.
Sim, SP não é sopa narra em versos imagéticos o que vê pelas rachaduras marginais da cidade de São Paulo (SP), com a indignação, a poesia e a ironia que se misturam no lento (e belo) samba Saracura, composto por Eduardo Brechó com Luisa Maita, convidada da faixa. E por falar em poesia, Teu mar enche meus olhos (Allan de Rosa) arremata o disco com versos que pintam Sampa com as cores de uma realidade crua em que o caos se mistura com a beleza no purgatório cinzento em que convivem sabiás e ratazanas. "São Paulo, pipa rasgada insistindo em voar", sintetiza verso do tema que fecha álbum de sentimentos intensos e por vezes até contraditórios. Não, a sopa sonora da Aláfia não é rala.
Fonte: G1
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